A instabilidade do patinete elétrico em relação à bicicleta, causada pela coluna de direção (canote) longa, é explicada por três princípios da física e da engenharia mecânica:
1. Braço de Alavanca e Torque
O canote longo funciona como uma alavanca. Qualquer pequena vibração, irregularidade no asfalto ou movimento involuntário das mãos é amplificado pela distância até o eixo da roda. No patinete, o "braço de alavanca" é muito maior que o de uma bicicleta, o que significa que uma força pequena no guidão gera um torque (momento de força) desproporcional na base, dificultando correções sutis e tornando a direção "arisca".
2. Geometria de Direção: Trail e Rake
Diferente das bicicletas, que possuem um ângulo de inclinação do garfo (caster) projetado para a autoestabilização, muitos patinetes têm o canote quase vertica.
Nas bicicletas: O "trail" (distância entre o ponto de contato do pneu e a projeção do eixo de direção) cria um efeito de centragem automática.
Nos patinetes: O trail é mínimo ou inexistente. Com um canote alto e vertical, o centro de massa do sistema de direção fica muito acima do ponto de pivô, o que favorece o "efeito de shimmy" (oscilação violenta do guidão em velocidades maiores).
3. Centro de Gravidade e Distribuição de Massa
Em uma bicicleta, o peso do ciclista está distribuído entre o selim, os pedais e o guidão, mantendo o centro de gravidade mais centralizado e baixo em relação aos eixos. No patinete:
O condutor viaja em pé, elevando o centro de gravidade do conjunto.
A longa haste do guidão não suporta peso estrutural, servindo apenas para controle. Isso cria um desequilíbrio pendular: qualquer oscilação no topo da haste desloca o equilíbrio lateral de forma muito mais rápida do que o tempo de reação humana para compensar.
4. Momento de Inércia das Rodas
As rodas pequenas do patinete têm muito menos momento de inércia (efeito giroscópico) do que as rodas grandes de uma bicicleta. Enquanto as rodas da bike ajudam a manter o veículo em linha reta por física pura, as rodas do patinete oferecem pouca resistência à mudança de direção, deixando toda a responsabilidade de estabilidade para o canote longo, que, por sua vez, é mecanicamente instável.
Sob o ponto de vista da física e da estatística de acidentes, o patinete elétrico é considerado significativamente menos seguro que uma bicicleta.
Os principais fatores científicos que sustentam essa afirmação são:
1. Estatísticas de Acidentes e Lesões
Risco de Acidente: Estudos indicam que a incidência de acidentes com patinetes elétricos que exigem atendimento de emergência é de aproximadamente 7,8 por 100.000 viagens, enquanto para bicicletas esse número cai para 2,2. Isso representa um risco relativo cerca de 3,6 vezes maior no patinete.
Gravidade das Lesões: Traumatismos cranianos são mais frequentes em usuários de patinetes (46%) do que em ciclistas (31%). Além disso, o patinete é apontado como o modal de micromobilidade que mais gera ferimentos proporcionalmente.
2. Estabilidade Dinâmica e Rodas
Efeito de Alavanca: Como mencionado, o canote alto amplifica qualquer irregularidade, tornando o controle muito mais sensível a erros.
Diâmetro das Rodas: As rodas pequenas do patinete (geralmente 8 a 10 polegadas) têm dificuldade em superar obstáculos simples, como buracos ou desníveis de 5-10 cm, que uma roda de bicicleta (26 a 29 polegadas) absorveria com facilidade. Isso causa quedas súbitas por "travamento" da roda dianteira.
Centro de Gravidade: O condutor do patinete viaja em pé, o que mantém o centro de gravidade do conjunto muito elevado e deslocado à frente, aumentando a propensão a capotamentos frontais em frenagens bruscas.
3. Comportamento e Regulamentação (Contexto 2026)
Uso de Equipamentos: Historicamente, usuários de patinetes utilizam menos capacete (cerca de 4% contra 28% de ciclistas em alguns estudos).
Novas Regras: Devido ao aumento de 702% em acidentes de micromobilidade em algumas regiões, novas normas do Contran passam a ser fiscalizadas com rigor a partir de 1º de janeiro de 2026. Veículos autopropelidos (como patinetes) agora possuem limites rígidos de circulação em áreas de pedestres (máximo 6 km/h) para mitigar riscos.
Em resumo, a combinação de rodas menores, geometria instável (canote alto) e centro de massa elevado torna o patinete mecanicamente mais perigoso que a bicicleta em ambientes urbanos irregulares.

